Nunca desanimar. Esse é o lema da palestrante e educadora financeira comportamental e motivacional Odete Reis, de 65 anos. Ela, que está sempre em movimento, mostra que há muito a ser feito em qualquer fase da vida, mesmo em meio a situações desafiadoras. Atuando como educadora financeira desde os 54, quando se aposentou do mundo corporativo, ela compartilha que o segredo para lidar melhor com qualquer coisa é se perguntar: “O que eu posso fazer para tornar essa situação melhor? Qual a minha parte nisso?”.

Odete nasceu em uma pequena cidade do Paraná, aos 7 anos, mas a família, bastante humilde, precisou fugir da estiagem e logo foi para São Paulo, onde ela começou a tentar ganhar algum dinheiro. “Eu ia varrer a escola e a merendeira me dava uns trocados. Ficava feliz fazendo isso. E quando chegava parque de diversão na cidade, eu ganhava dinheiro pegando as bolas que caiam na boca do palhaço”, conta, reforçando que era uma outra realidade, com menos violência que a de hoje.

O primeiro emprego veio aos 14 anos, em um posto de gasolina. “Era registrada. Lá eu limpava banheiro, fazia café pros caminhoneiros, ficava no caixa. Eu brinco que eles adoravam meu café e meu chá. Eu fazia o melhor que podia.” E a vontade de melhorar da jovem fez com que a empresa dona do posto a enviasse para outra função: uma vaga de “auxiliar de auxiliar” de contabilidade. E ali começou a história de Odete com os números.

“Algum tempo depois fui trabalhar no Bradesco. Fiquei lá alguns anos e cheguei a me tornar gerente de operações do mercado de capitais aos 24 anos”. Odete Reis ainda passou por multinacionais alemãs, como Mahle/Behr, Aventis/Sanofi e Hoechst/Agrevo, nas quais trabalhou em áreas diversas. Esteve 42 anos no mundo corporativo, que ela realmente diz ser a sua “praia”. 

Aposentada, mas nunca parada, como gosta de dizer, atualmente Odete Reis dá palestras de educação financeira, ajuda animais abandonados e se dedica ao cultivo de plantas. Também faz parte da APOEF (Associação de Profissionais e Orientadores de Educação Financeira), é colunista no Diário de Suzano e autora do livro: “SIM para seu dinheiro - Guia prático de Finanças Pessoais”.

Odete Reis

Foto:Odete Reis/Arquivo pessoal

Confira a entrevista com Odete Reis: 

Odete, você atuou em diversas áreas no mundo corporativo, mas se tornou educadora financeira dois anos antes de se aposentar. Como foi isso?

Eu estou sempre inventando e algumas vezes não aguento (risos). Quando estava me preparando para sair da última empresa em que trabalhei, tive que contar até com a ajuda de uma psicóloga porque eu era e sou muito apegada às coisas que faço. Depois que saí, era como se estivesse de férias nos primeiros meses, mas depois começou a dar uma tristeza. 

Atuar com educação financeira foi uma oportunidade que começou nessa empresa, pois nos últimos dois anos em que estava lá, já me preparando para sair, a empresa tinha um projeto bacana que dava capacitação para jovens carentes que moravam no entorno. Eu dava aulas de comunicação, de português, de ética para esses jovens. Fiquei um tempo dando essas aulas e via que eles recebiam meio salário mínimo e gastavam de uma vez com celular, tênis, boné.

Eu perguntei para a organização se poderia ensiná-los a usar o dinheiro. Bolei um negócio por minha conta e risco e deu certo, eles gostaram. Naquela época também tinha a SIPAT nas empresas. O gerente de finanças perguntou se eu não poderia falar sobre dinheiro. Eu montei um material, falei por uma hora e percebi que estava todo mundo precisando ouvir falar sobre dinheiro. E assim começou.  

Ou seja, no lugar de parar de trabalhar, descobriu novos horizontes, certo? Você já tinha uma metodologia? Como fazia para ensinar?

Metodologia eu não tinha nenhuma, fui com a cara e a coragem. Só depois que criei a minha metodologia SIM, que está no livro. Mas eu já estava procurando algo para fazer nesse período antes de sair da empresa. Pensava em fazer algo com plantas ou montar uma ONG de animais. Eu conversava com uma psicóloga e com uma coach. E naquele ano, acabei dando cinco palestras na SIPAT. Deu tão certo que a empresa até me chamou para fazer consultoria depois.  

E como você vê a questão da educação financeira no País? Aqui no Instituto falamos em Longevidade Financeira. 

Eu achei bárbaro o trabalho do Instituto e já tinha ouvido outra expressão similar, "Longeratividade", que se refere às pessoas longevas que se mantêm em atividade. Eu penso que é preciso aprender a guardar dinheiro porque se vivemos mais 20, 30 anos além da aposentadoria é preciso viver bem. Minha mãe e minha sogra, por exemplo, não guardaram nada, era outra época. E quando você começa a ter controle sobre seu dinheiro, seu cérebro muda.

Existem pessoas que dizem que devem, mas nem sabem quanto. Tem que saber, tem que olhar as contas. Eu já fui uma devedora, vivia no cheque especial. Eu e meu marido tínhamos bons salários, mas nossa vida não era compatível com o que ganhávamos. Tinha carrão, babá, empregada. Aí me deu um estalo, fiz uma reunião familiar e disse que, a partir dali, iríamos nos organizar.

Eu pegava dinheiro emprestado com uma amiga, pagava e pedia de novo. Um dia ela disse que eu não tinha vergonha na cara porque eu não resolvia a situação (risos). Então fiz uma reunião com as crianças, disse que ia mandar a empregada embora e até cortar os danoninhos. Vendemos o carro, dividimos as tarefas em casa, pegamos férias e 13º e em seis meses consegui zerar as contas. 

Ou seja, você passou de devedora à educadora, né? Sempre é tempo de organizar melhor essa parte da vida?

Sim, por mais que a pessoa esteja devendo, ferrada, ela tem que entender a situação para começar a resolver. Aí é procurar renda extra para ter dinheiro, pensar nos hobbies que pode transformar em dinheiro, o que pode vender. A gente sempre tem coisas para vender em casa. Tem que enxugar, minimizar.

O nome tá sujo? Não tem pressa, vai negociando nesses feirões. Uma amiga tinha uma dívida de 50 mil e pagou 8 mil, porque eles querem ter você de volta para gastar dinheiro de novo. E aí é ver também onde pode economizar. A conta de luz é 150? Pega a família e fala: vamos baixar para 120? Outra coisa: educação financeira é como aprender a dirigir na autoescola. E finanças pessoais, planejamento, é dirigir esse carro, colocar na prática o que aprendeu. É dirigir o carro com a melhor segurança possível.

E a família toda tem que cooperar para dar certo?

Tem que envolver todo mundo, você sozinho não consegue nada. Eu sentei com minhas filhas e envolvi todo mundo no negócio. Aí o dinheiro começa a aparecer, começa a sobrar. Para isso, é preciso controlar e mudar o hábito. Os psicólogos dizem que são 21 dias. Tem um caderninho aqui que desde 2015 a gente anota os gastos. Meu marido vai na padaria, volta e anota quanto gastou.  

Foto:Odete Reis/Arquivo pessoal 

E se a pessoa não gostar de números? Não gostar de anotar?

Você pode não gostar de números, então marca um tempo para fazer essa tarefa. Eu não gosto de cozinhar, então marco que vou cozinhar das 11h às 12h30 e faço naquele tempo. Precisa querer ter uma vida financeira organizada, e está provado que se sua vida financeira está organizada, tudo melhora. 

Tem também a pessoa que não deve, mas investe tudo errado. Outro dia uma mulher falou para mim que tinha dinheiro na poupança, mas não tirou, financiou o carro. Ou seja, vai pagar muito mais em juros do que recebe na poupança. Então as pessoas não têm ideia, faltou aprender a dirigir.

No livro, além da questão de estabelecer um tempo para as tarefas, você fala muito sobre ter foco, mudar de atitude para resolver os problemas. Qual a importância disso?

Sim, eu vejo por exemplo, jovens que dizem que precisam falar inglês, que ficam o tempo todo reclamando que não sabem, mas não se matriculam, não vão atrás. Minha metodologia SIM diz que é preciso colocar objetivo e meta e ir atrás. 

Eu tive uma oportunidade em uma empresa alemã e, na época, um senhor suíço que gostava de mim, falou que eu tinha brilho no olho, mas para crescer precisava aprender duas coisas: ou química ou alemão. Aí pensei: não gosto de química. E fui aprender alemão. Conheci meu marido lá e estudei alemão como condenada. 

Cheguei a juntar dois meses de férias, deixei minhas filhas aqui e fui parar na Alemanha. Nunca tinha entrado num avião na vida, foi em 89 isso. Foi uma coisa muito rica pra mim. Fui em todas as excursões da escola. E quando não tinha, como as pessoas de idade lá são muito ativas e vão a muitas excursões de fim de semana, como a festa do vinho etc., eu me enfiava no meio deles para falar alemão com eles.

Odete, você passou por muitos desafios até chegar na fase atual. Um deles aconteceu quando você estava a todo vapor na sua nova fase como educadora financeira, né?

Sim, eu ia fazer 60 anos em março e comemorar com uma festa e uma viagem. Estava no auge. Até que veio o câncer. Nunca imaginei na minha vida que teria isso, sempre tive muita saúde. Pediram vários exames, era um câncer agressivo e disseram que tinha que ser retirado. Operei em julho e fiz quimio por um ano. As pessoas choram, mas perguntei ao médico o que precisava fazer e fiz. Não me deixei abater. Não fui pesquisar na internet, não entrei naqueles grupos de apoio que tem, não quis nada disso.

Eu diminuí o ritmo, mas não parei. Ia palestrar com uma peruca que minha filha me presentou e não contei para ninguém. Minha quimio era a cada 21 dias, fiz isso por um ano. Na semana em que estava melhor ministrava palestras e cursos e em uma delas fui pra Brasília e dei um curso contratada pela OAB. 

Eu falaria para quem está numa situação como essa que é preciso enfrentar com coragem e esperança qualquer problema, querendo resolver. E se fazer a pergunta: “O que eu posso fazer para resolver a minha situação?”. Se eu começar a me abater fica mais difícil. As pesquisas mostram que mulheres que são mães de crianças pequenas se recuperam muito mais rápido de doenças.

E como é sua rotina hoje?

Todos os dias eu acordo e penso o que posso fazer para ter uma vida mais legal. Agora eu caminho e corro 6km por exemplo. Eu tenho metas. Faço 6km em 61 minutos e a minha meta é chegar nos 60 minutos. A prioridade é acordar, tomar café e correr no parque. Depois é fazer vídeos para o meu trabalho e escrever. Tenho uma coluna numa revista online chamada MundiSE. Também vejo propostas que recebo, atualizo as redes sociais e agora estou com um curso novo onde peguei todo conhecimento que eu tenho e juntei em vários tópicos. Além disso, dou consultoria informal de jardinagem (risos) porque o pessoal vê minhas plantas e vem perguntar, cuido dos meus bichos e quero viajar, mas não posso. E ainda estou fazendo controle médico anualmente.

Você dedica o livro ao seu marido e fala do apoio que ele te dá para se manter bem e em movimento.

Chamo ele de maridaço. Ele se aposentou e, ao contrário de mim, que não paro, ele só quer cortar grama e ver futebol, mas a verdade é que eu enfio ele em tudo. É meu fotógrafo, motorista, técnico de TI, então estamos há 40 anos juntos e ele me dá muito apoio. Tenho um casamento bacana. O primeiro casamento que eu tive deu tudo errado e esse deu tudo certo. Ah, e ele tenta me tirar do computador também, quer que eu diminua o ritmo! (risos).

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