Com o isolamento forçado e o home office, milhares de mulheres se viram obrigadas a combinar as tarefas do dia a dia com o lado materno e o profissional. Se por um lado, todo esse excesso de trabalho causou uma sobrecarga na rotina delas, por outro promoveu um importante debate: com tantas habilidades envolvidas, vale a pena incluir a maternidade no currículo ou não?

Há muito tempo, alguns grupos vêm lutando para que a maternidade seja reconhecida como um trabalho legítimo que capacita as mulheres com habilidades valiosas para os empregadores. A comunidade HeyMama, que tem sede nos Estados Unidos, lançou uma campanha chamada Motherhood on the Resume ("Maternidade no Currículo").

Entre outras coisas, a organização defende a inclusão da maternidade no currículo, bem como em redes sociais como o LinkedIn. Contudo, ainda se discute se a informação realmente poderá trazer benefícios às mulheres ou se produziria o efeito oposto, potencializando ainda mais o preconceito contra o sexo feminino e a maternidade.

De acordo com Katya Libin, cofundadora e CEO da HeyMama, o objetivo da campanha é "derrubar alguns dos preconceitos culturais que existem contra mães no local de trabalho e dar às mulheres as ferramentas para reconhecer que a maternidade é um campo de treinamento para liderança e crescimento".

Maternidade no currículo: é preciso derrubar preconceitos culturais que existem contra mãe em ambientes corporativos.

Maternidade no currículo: é preciso derrubar preconceitos culturais que existem contra mãe em ambientes corporativos. Foto: Dragana Gordic / Shutterstock.

Libin explica que a campanha foi lançada agora porque a pandemia exacerbou a importância de reconhecer o trabalho das mães e as qualidades adquiridas com a maternidade. Segundo a CEO, as mães são melhores ouvintes, são mais diplomáticas e "superorganizadas", diz ela.

"O mercado de trabalho atual exige de fato uma comunicação forte e habilidades interpessoais, então acho que ver a maternidade como uma vantagem, em vez de algo que pode 'destruir uma carreira' é um dos objetivos principais ", complementa.

Fundadora da The Fifth Trimester, consultoria que ajuda empresas a apoiar e reter funcionários com filhos, Lauren Smith Brody lembra que “muitas pesquisas mostram que, de fato, as mães são realmente mais eficientes e melhores mentoras. E quando você leva as mães à liderança, elas acabam sendo mais lucrativas."

O mundo ainda não está preparado para as supermães

Por mais que uma consciência contrária esteja crescendo e se fortalecendo, principalmente com as novas gerações, não se pode negar que vivemos em uma sociedade profundamente machista.

"Atividades estereotipadamente masculinas são vistas como compatíveis com o que se deseja no local de trabalho — daí a abundância de metáforas esportivas no trabalho e na linguagem da liderança", diz Michelle Ryan, professora de psicologia social e organizacional da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Para se ter uma ideia, atividades como pertencer à equipe de rúgbi da universidade ou treinar triatlo podem ser vistas como trabalho em equipe e traduzir um sentimento de colaboração por parte de seus praticantes, o que é muito bem-visto nas análises curriculares. No entanto, as atividades inerentes à maternidade, que envolvem planejamento, organização, controle emocional e um profundo preparo físico, ainda são vistas como atividades fora do trabalho que, por vezes, podem penalizar as mulheres.

Uma pesquisa da Kennedy School de políticas públicas da Universidade de Harvard, nos EUA, revelou que os empregadores julgam as mães 10% menos competentes e 12,1% menos comprometidas do que profissionais que não têm filhos.

Isso sem falar na desvantagem financeira que as mulheres enfrentam, com menores salários e bonificações desproporcionais. De acordo com a pesquisa da Harvard, as mulheres que são mães recebem salários iniciais 7,9% mais baixos do que candidatos sem filhos.

Como resultado dessa discriminação, muitas mães passaram a adotar o chamado "secret parenting", movimento oposto à campanha para alardear a maternidade no currículo.

Maternidade no currículo pode trazer problemas na hora da contratação

Mulheres que são mães continuam sendo vistas por muitas empresas como funcionárias problemáticas, que a todo instante precisarão se ausentar do trabalho para resolver problemas dos filhos. E, diferentemente do que muitos pensão, deixar que os currículos sejam avaliados por recrutadores do sexo feminino pode não favorecer as mães como o esperado.

"As mulheres discriminam as mulheres tanto quanto os homens as discriminam", afirma Ruhal Dooley, consultor de RH da Society for Human Resource Management. Para ele, é vital relacionar como as habilidades adquiridas na maternidade fazem das mulheres fortes candidatas no mercado de trabalho.

"Se uma mulher é capaz de me mostrar em seu currículo como ser mãe pode torná-la, digamos, uma atuária melhor, sem dúvida, acho que isso a ajudaria — mesmo com as pessoas com preconceitos maternos implícitos", garante.

A luta contra o preconceito

Já vimos que citar a maternidade no currículo pode ser uma faca de dois gumes. Mais ainda se pensarmos em alguns fatores que podem potencializar a discriminação por parte do sexo do candidato, como o racismo. O Censo Demográfico realizado em 2019 nos Estados Unidos mostrou que as mulheres negras recebiam apenas 63% do que os homens brancos não hispânicos, e as latinas apenas 55%.

Para Dooley, além da penalização pela maternidade, mulheres negras e latinas podem enfrentar uma espécie de dupla penalização. "Há uma percepção de que a maternidade de alguma forma vai interferir em sua capacidade de ter um desempenho à altura e além."

Ryan acrescenta: "Normalizar a maternidade é importante e vai ajudar a mudar as expectativas e a cultura organizacional. Mas também pode ter um impacto sobre as mulheres que optam por fazer isso, já que pode gerar estereótipos como falta de compromisso ou ambição."

Os aspectos positivos superam os riscos?

A conclusão a que muitos pesquisadores chegaram é que vai depender muito da candidata se os efeitos de incluir a maternidade no currículo serão positivos ou negativos. Será preciso que essas mães avaliem com quem irão falar, quem serão os recrutadores e qual a ideologia da empresa em questão para conseguirem julgar os prós e os contras.

Uma empresa mais tradicional poderá ver a maternidade no currículo com maus olhos, enquanto uma startup provavelmente irá valorizar consideravelmente aquela informação. Porém, mais do que identificar a cultura de uma empresa em relação à maternidade, é importante pensar se você gostaria de trabalhar nesta empresa, seja você mãe, mulher, homem ou pai.

"Se você está analisando um ambiente, e esse ambiente não é acolhedor para mães, você tem que se perguntar se deseja trabalhar em um lugar como esse", diz Smith Brody, da The Fifth Trimester.

Por ora, basta que as mães entendam que adicionar ou não informações sobre a maternidade no currículo é algo experimental, um risco, até que se torne algo comum. Mas que os primeiros passos já foram dados.


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