“A morte põe um olho no passado e outro no futuro”, escreveu a autora Carla Madeira no livro “Tudo é rio”. Esse rompimento forçado com o momento presente é lidado de forma difícil pela maioria das pessoas. São raros os casos de quem se prepara para a morte e para o luto. Mas em tempos de pandemia da Covid-19, esse tabu ganhou um novo peso que nos obrigou a encará-la de frente e sob uma nova ótica.

“As pessoas estão tomando consciência mais concreta de que podem morrer. Isso traz muito medo, muita insegurança”, avalia Tom Almeida, fundador do movimento InFINITO, que debate o tema da finitude.

Pandemia mudou (ainda mais) forma de viver o luto

Os avanços da ciência e da medicina proporcionaram um aumento na longevidade. Em 1945, a expectativa de vida do brasileiro era de 45,5 anos. Já em 2020, esse índice chegava a 76,6 anos. Se por um lado isso significa estar mais tempo vivo, por outro, também trouxe mais distanciamento da morte.

“A gente passou a acreditar que tem o controle da vida e a terceirizar a responsabilidade sobre a morte. A morte não está mais próxima. A pessoa que antes morria em casa, agora vai morrer numa UTI. O cuidado do corpo é terceirizado para uma funerária”, observa Tom Almeida.

A pandemia levou esses ritos para uma distância ainda maior. As mortes, em sua maioria, acontecem em UTIs com os pacientes completamente isolados de seus familiares. Além disso, o pós-morte é igualmente solitário, sem possibilidade para quem ficou de realizar funerais ou receber o conforto de um abraço amigo.

Numa reação em cadeia, tal situação deve trazer impactos que vão além do momento atual, enquanto ainda vivemos a situação pandêmica. Almeida considera que a pandemia da Covid-19 pode provocar uma “crise do luto”. Um verdadeiro problema de saúde assim como obesidade, fumo e alcoolismo.

“[O luto pela Covid-19] tem características muito semelhantes às de uma morte trágica, repentina. A gente ainda vai colher por muitos anos o impacto desse luto sobre muitas pessoas. E ainda tem o luto coletivo, não só pela perda humana, mas a perda dos sonhos, dos planos, da rotina. Tudo isso reverbera em qualidade de vida, temos adultos com nível de estresse muito mais alto”, acredita.

Forma de lidar com o luto tem relação com a forma como ocorreu a morte, seja em hospital ou em casa | Foto:  sfam_photo/Shutterstock

Forma de lidar com o luto tem relação com a forma como ocorreu a morte, seja em hospital ou em casa | Foto:  sfam_photo/Shutterstock.

O medo da morte te paralisa ou te impulsiona?

Você tem dificuldades em pensar ou falar sobre a morte? Se sim, saiba que não está sozinho. Estudo realizado pelo Studio Ideias para o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) identificou que 68% dos brasileiros têm dificuldade em lidar com a morte.

As razões para isso podem ser individuais e coletivas, de forma que estão muito ligadas à nossa cultura. A religião também exerce grande influência sobre como encaramos a morte. Dentre os fatores que nos afastam do assunto, estão:

  • Arrependimentos por uma vida não vivida, escolhas feitas ou não feitas;
  • Medo do sofrimento físico;
  • Insegurança quanto a como vão ficar as pessoas que amamos.

Porém, diante da dificuldade em encarar o luto hoje, há apenas um remédio: planejar e tomar ações que visem a um futuro que, sabemos, é finito. “A gente pode até morrer mais tarde, mas o índice de morte ainda é de 100%”, provoca Tom Almeida.

A pandemia da Covid-19 faz com que o medo da morte permeie nossa rotina de forma mais concreta, mas esse sentimento também pode ser o impulsor para mudanças de vida e antecipação de sonhos. “A consciência da finitude não é uma coisa mórbida, é o que traz protagonismo e consciência de como eu quero viver.  Você sai de um processo meio paralisado e adormecido de viver”, avalia Almeida.

Nesse sentido, é mais comum pensar no preparo para morrer sob o aspecto emocional. Você já deve ter ouvido aquela máxima do “expresse seu amor agora, antes que seja tarde demais”. Mas esse preparo vai além.

A reflexão sobre a morte é um processo de autoconhecimento no qual se deve pensar sobre quais são os seus medos, o que gostaria de realizar, o que te provoca arrependimento ou ansiedade. A partir daí, se tem uma ideia mais clara de como viver no sentido de realizar seus sonhos.

Como se planejar para a morte

Ao compreender que a morte não é o contrário da vida, mas faz parte dela, é mais fácil passar por esse processo e lidar também de forma prática com aspectos mais burocráticos - e não há mal nenhum nisso. Pelo contrário: esse é um gesto que tranquiliza quem vai e quem fica, gerando um cenário em que todos já sabem quais as escolhas e os procedimentos a serem adotados.

É nesse sentido que o seguro de vida vem sendo um produto cada vez mais procurado.  “Culturalmente, o brasileiro é cercado de um otimismo muito grande que não se permite uma simples pergunta: ‘sua família estará preparada quando você vier a faltar?’. A pandemia veio mudar isso, mostrou para as pessoas que, por mais que a gente seja otimista, está suscetível a eventos inesperados. Por isso, mesmo com todo o cenário adverso, o seguro de vida cresceu mais que outros mercados, a pandemia ligou esse alerta na população como um todo”, conta Rodrigo Cunha, gerente de desenvolvimento de produtos da MAG Seguros.

Além do seguro de vida, esse planejamento envolve etapas como:

  • suas escolhas em caso de uma doença ou internação (Ex.: se tiver uma parada cardíaca, quer ser reanimado?);
  • suas preferências caso não possa mais morar sozinho (Ex.: quer morar com um parente ou em uma casa de repouso?);
  • o que deseja que seja feito após sua morte (Ex.: prefere ser enterrado ou cremado?).

Mas afinal, quando é o melhor momento para começar a se preparar para a morte? “O momento perfeito é agora. A gente fica aguardando um diagnóstico, uma data, uma aposentadoria, aguardando alguma coisa. Mas às vezes não dá tempo, não chega esse quando”, alerta Tom Almeida.


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