Desde 1970, junho é marcado no calendário em todo mundo como o mês do Orgulho LGBTQIA+. A data foi criada justamente com o objetivo de combater preconceitos e de celebrar a vida de pessoas LGBTQIA+, que desejam, além de simplesmente sobreviver, viver e envelhecer com dignidade e segurança, assumindo quem realmente são de verdade. 

Afinal, em uma sociedade tão diversa como a nossa, naturalmente as formas de se envelhecer seriam diferentes também. As oportunidades e os obstáculos não são os mesmos para cada pessoa. Dinheiro, preconceitos, saúde, educação, trabalho… Tudo isso implica na forma como cada um chegará (e se chegará) à sua velhice.

Os desafios da longevidade para uma pessoa LGBTQIA+

Para Diego Felix Miguel, doutorando em Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo), especialista em Gerontologia pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e padrinho da Associação Eternamente Sou (primeiro centro de convivência de pessoas idosas LGBTQIA+ no Brasil), falar sobre longevidade para a comunidade LGBTQIA+ é bastante complexo, pois vivemos em uma sociedade LGBTQIA+fóbica, com estruturas e padrões sócio-culturais estabelecidos por uma ótica hétero-cis-normativa.

E o que isso significa?

Que as estruturas e os padrões culturais e sociais do meio em que vivemos foram estabelecidas, prioritariamente, por homens brancos, heterossexuais (que sentem atração sexual ou romântica por pessoas do sexo ou gênero oposto), cisgênero (que se identificam com o sexo biológico com o qual nasceram) e de classe social mais elevada.

Assim, quando essas estruturas são definidas por uma pequena parcela da sociedade, aquelas pessoas que não se enquadram ao padrão acabam sendo limitadas e limadas de sua identidade, colocadas à margem social e expostas a violências e preconceitos. 

“Então uma pessoa que passa a vida vivenciando preconceitos, discriminações e tem os acessos negados, ela não consegue ter um acesso digno à saúde, não consegue ter um acesso digno e seguro à educação, ao esporte, ao lazer, à cultura, enfim, a aspectos que são tão importantes em nossa vida”, explica Diego. 

Ou seja, uma pessoa LGBTQIA+ acaba não tendo as mesmas oportunidades de envelhecimento que uma pessoa heterossexual e cisgênero, o que limita a sua participação social.

“É um desafio para todos nós que somos LGBTQIA+ chegar à velhice, principalmente de uma forma ativa, com independência e autonomia preservadas, transitando socialmente por todos os lugares que nos são de direito de forma segura”, comenta Diego.

A invisibilidade do envelhecimento LGBTQIA+

Outro obstáculo presente no envelhecimento LGBTQIA+ é a sua invisibilidade. A partir do momento em que todas as diversidades e todas as realidades da velhice não são contempladas, os grupos sociais que se encontram à margem se tornam invisíveis. Ou seja, não são vistos e, por isso, não têm suas necessidades e dores específicas contempladas. 

Ao se considerar apenas uma forma de velhice, ou seja, a velhice do homem branco, hétero, cisgênero e classe média, as outras múltiplas formas de velhice se tornam inacessíveis. 

A pessoa idosa não é uma só. As pessoas idosas não são iguais, por isso é preciso que cada grupo social seja visto como é, e não como um derivado de um grupo padrão. Quando isso não acontece, os problemas enfrentados enquanto pessoas mais novas tendem a ser agravados no envelhecer.

Envelhecimento LGBTQIA+ no Brasil: desafios e caminhos em busca de longevidade. Dois homens brancos seguram mãos em frente a uma bandeira que representa o movimento LGBTQIA+.

Crédito: Serhiy Bondar/Shutterstock

“Então, com isso, acabamos reforçando a negligência, o preconceito, a invisibilidade e, muitas vezes, o silenciamento quando não colocamos essas pessoas como protagonistas de espaços de exercício democrático e de participação social, como, por exemplo, na construção de políticas públicas”, afirma Diego. 

Nesse caso, o especialista em Gerontologia explica que, para que existam políticas públicas assertivas para toda a população idosa, é preciso que representantes das diferentes realidades do envelhecimento sejam ouvidas.

“Será que as questões de gênero, sexualidade e diversidade são contempladas nesses discursos?”, indaga. “É isso que acaba gerando essa invisibilidade, quando não criamos e não proporcionamos representatividade nesses espaços que, teoricamente, são e precisam ser de exercício da cidadania, representando todas as possibilidades e realidades de envelhecimento e velhice”.

A invisibilidade de pessoas trans e travestis 

Ainda dentro do problema da invisibilidade do envelhecimento, temos as pessoas trans e travestis, que se encontram ainda mais à margem social. “São pessoas que estão mais expostas à violência, muitas vezes até mesmo antes que se identifiquem, que se coloquem socialmente como pessoas trans ou travesti”, explica Diego.

Ou seja, direitos básicos como acesso à escola e educação, como um ambiente seguro para sua formação, são tolhidos. Para muitas pessoas trans e travestis, até mesmo a oportunidade de um emprego digno, onde se sintam valorizadas e possam exercer de fato o trabalho que gostariam, é um grande empecilho.

Fora questões que envolvam a rede de suporte e de acolhimento, como a família. 

“Sabemos como a questão de gênero acaba influenciando bastante muitas famílias. Muitas pessoas trans e travestis precisam sair da casa de suas famílias muito jovens para, de fato, vivenciarem sua identidade de gênero”.

Por isso, todas essas violências acabam culminando numa maior dificuldade de conquistar uma longevidade plena e ativa. Partindo da escola, do trabalho e do ambiente social, as pessoas trans e travestis acabam não sendo acolhidas e não garantem para si as mesmas oportunidades para que tenham saúde, se sintam seguras ou, até mesmo, construam sua Longevidade Financeira.

De acordo com Diego, muitos hospitais ou instituições de longa permanência que acolhem pessoas idosas não estão preparados, de fato, para receber idosos que sejam trans. Muitas vezes, essas pessoas acabam sendo alocadas em alas separadas por um gênero com o qual não se identificam, ou utilizam seu “nome morto” (nome com o qual a pessoa foi registrada ao nascer, mas que não é seu nome social).

“Essas violências, muitas vezes em nome da instituição ou de normas burocráticas, acabam sendo naturalizadas. No entanto, elas acabam ferindo de forma muito perversa a identidade, toda a história de vida de uma pessoa”, explica o gerontólogo. “Isso faz com que, muitas vezes, essas pessoas não procurem serviços de saúde e não queiram esses atendimentos no momento que estão mais vulneráveis pois, mesmo que minimamente, elas precisam ter a dignidade de ser quem elas realmente são”.

Em busca da longevidade LGBTQIA+

Para Diego, o caminho para a mudança desse cenário é político. E não político em sentido partidário, mas enquanto participação social.

“Precisamos ocupar espaços, nos fazer presentes, termos representatividade nessas pautas políticas quando falamos de envelhecimento, de velhice. Quando falamos de saúde, quando falamos de cultura, de esporte, de lazer e turismo. Que a questão LGBTQIA+ possa estar presente. Só dessa forma conseguiremos mudar essa realidade”.

Envelhecimento LGBTQIA+ no Brasil: desafios e caminhos em busca de longevidade

Crédito: lazyllama/shutterstock

E, para isso, a participação do Estado se faz essencial. As realidades vivenciadas pelas pessoas da comunidade LGBTQIA+ são diferentes, então nem todas conseguem ter acesso às mesmas oportunidades. Existem, sim, formas para que as pessoas consigam garantir sua longevidade e sua Longevidade Financeira, mas para isso é preciso contar também com uma mobilização social e por parte das instituições. 

“Acredito que, para envelhecermos ativamente, é lógico que temos uma grande responsabilidade sobre isso, principalmente a partir de nossas escolhas e também do que fazemos ao longo da vida”, comenta Diego. “Mas o Estado, principalmente, tem que nos proporcionar a possibilidade dessas escolhas. Será que uma pessoa trans tem a mesma oportunidade de acessar uma universidade e cursar Medicina?”.

Ouvir para acolher

Outro ponto importante levantado pelo especialista é que precisamos “presumir menos e perguntar mais”. A inclusão ou a invisibilidade da pessoa idosa LGBTQIA+, muitas vezes, pode acontecer em uma simples fala relacionada ao estado civil da pessoa.

Por exemplo, o cadastro é a porta de entrada para muitos serviços prestados à pessoa idosa. Quando um homem chamado João chega ao balcão para ser atendido e diz que é casado, a pessoa responsável não pergunta “Qual é o seu amor?” ou “Com quem o senhor é casado?”. Pergunta “Qual o nome da sua esposa?”.

Ou seja, já existe uma ideia pré-concebida de que o João é um homem hétero casado com uma mulher. 

“Presumir é um dos maiores problemas que nós temos. Precisamos ter uma escuta qualificada e um atendimento mais humanizado para sermos ainda mais inclusivos e sensíveis em relação às pessoas idosas. Essa pessoa não é, muitas vezes, aquela pessoa idosa estereotipada, de cabelos brancos, rugas, branca, classe média. Ela é uma pessoa que traz suas próprias histórias e sua própria identidade, seus próprios desejos, seus próprios afetos. E precisamos estar muito abertos a isso”, finaliza.


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